É Natal, cuidado!
Eu estava pronto para dizer que finalmente chegamos à noite tão esperada. Se dissesse isso, cometeria um formidável equívoco. Estou mais propenso a dizer que finalmente chegamos à noite que muitos querem evitar. Não tenho mais dúvidas: fora as crianças, e crianças que sabem que vão ganhar presentes, não tenho dúvidas que não são muitos os adultos que vão festejar o Natal de espírito genuíno e em paz.
Há uma estrepitosa maioria que se vai deprimir esta noite. Vão chorar, vão procurar pretextos para brigar, vão fechar a cara diante da aparente felicidade de outras pessoas, etc, etc.
Se tivéssemos uma estatística de consumo de medicamentos desta noite de Natal ficaríamos arrepiados, tantos são os que se vão engasgar com ansiolíticos, antidepressivos ou mesmo vão perder a consciência bebendo... Não, esta não é uma noite de paz para muita gente, para a maioria, se o mundo como um todo for considerado.
Todavia, leitora, vamos tentar esquecer os que têm contas a acertar com a vida ou se veem como vítimas da sorte... vamos tentar. Quero então pedir – de mãos juntas – que os emburrados existenciais, os que estão escondendo encrencas produzidas por suas frustrações, e que as dissimulam durante o ano, que por favor não estraguem a festa dos outros nesta noite especial.
A tia problemática, a mulher que não se vê amada, o marido que se acha um cão chutado, os irmãos que não se toleram, os convidados que não passam de corpos presentes na festa, essa gente dos escândalos emocionais, enfim, que fique quieta, que feche a boca e que vá lá para fora, no pátio, na sacada, fumar um cigarro, passar a mão no cachorro, o que for, só não aborreça os outros.
Se a leitora quiser um preventivo, leia esta mensagem antes da festa – claro, vai dar um bafafá, os amuados não gostam de ser desmascarados. Mas que fique claro, o imbecil que fizer cara feia hoje à noite, que brigar por qualquer dá-cá-essa-palha, merece ouvir uns desaforos.
Aliás, é caso de internação psiquiátrica de quem desnuda mágoas e mau-caratismo justamente esta noite. Esta noite é do Cristinho que nasce simbolicamente – ou deve nascer – no coração de todos. Se não for assim, que farsa é essa, que Natal os desmancha-prazeres estão fazendo?
Sabe o que mais, leitor? Perdi meu tempo. Rezo para que sua festa seja em paz, que o Cristinho da manjedoura lhe pisque o olho de comparsa, e que seja o Natal mais feliz da sua vida. E seu também, leitora. Bom Natal pra vocês, depois me contem como foi a festa.Promessa
Ainda não é Ano-Novo, mas já é bom ir pensando em alguma promessa a ser feita na noite de Réveillon. Quem sabe prometer-se para 2010 não dar descanso à mente, à memória?
Quem sabe nutri-la fartamente durante todo o ano? Que bela pessoa você vai ficar...
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
É Natal, cuidado! - 24/12/2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Eles são melhores - 23/12/2009
Eles são melhores
Os guris são parecidos com os das outras escolas, e assim as gurias. Todos gostam dos mesmos folguedos, músicas, celulares, festas, grupos de amigos, tudo, tudo por igual. Mas são diferentes. Muito diferentes. E para melhor. Por quê?
A pergunta que faço é por fazer. É rematada tolice a pergunta, mas ela se justifica em razão de muitos anarquistas da esquerda não admitirem. Mas vão definhar engolindo a verdade: a ordem produz progresso. A disciplina faz gente melhor. A autoridade alicerçada sobre virtudes é o único caminho para a formação de jovens que serão mais tarde cidadãos de bem.
Já fui longe e não disse a que venho. Digo agora. Acabo de abrir a Zero Hora, nossa irmã mais velha e que “mora” em Porto Alegre, e esbarrei numa reportagem que tanto me irritou quanto me deixou feliz. Pode isso? Pode e explico.
A tal reportagem contava do avassalador domínio das escolas militares em formar bons alunos e ganhar medalhas de todo tipo em provas de âmbito nacional, como o concurso anual de matemática promovido pelo Ministério da Educação.
Isso me deixa feliz e também me irrita.
Fico irritado porque é muito óbvia a razão por que são melhores as escolas militares e muita gente teima, ou finge, não ver. Nos colégios militares há disciplina, ordem, uniformes, horários, responsabilidades. Todos andam na linha. Ninguém discute a disciplina. O guri sabe que não pode bobear como o fazem os outros, das escolas regidas pela “pedagogia do amor”, argh.
Numa escola militar, os pais não chegam atirando as chaves do carro sobre a mesa do professor e dizendo a ele, desaforadamente, que lhe pagam o salário, e que por isso exigem respeito com o seu menino... Numa escola militar, os pais dos alunos não erguem o queixo, não são bobos...
Além de tudo, as aulas são dadas por gente qualificada e séria, não há histrionismos para motivar o alunado, o pessoal sabe que ou estuda ou dança. A ordem é unida, sem risinhos histéricos de gurias dengosas nem guris abestados a mandar torpedos de celular durante as aulas. Ah, os colégios militares, todos tinham que ser como eles. A sociedade seria outra.
Aproveito a conversa para mandar um abraço de admiração aos diretores, professores e alunos do nosso Colégio Policial Militar Feliciano Nunes Pires, de Florianópolis, um exemplo entre nós. Sei que a moçada do CPM anda na rua de peito estufado, sabem que são diferentes, sabem que estudam numa escola de ordem e progresso.
Se você puder, ponha seu filho ou filha num colégio militar. E durma em paz.Herança
Guardo frases. Como esta de um samba do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues: “Vergonha, a herança maior que o meu pai me deixou”. Que pai que hoje está deixando vergonha como herança? Vergonha é o resumo das virtudes. Só os virtuosos sabem o que é vergonha. Poucos, humm, poucos!
Etiqueta
Bons modos seduzem. A pessoa grossa pode dizer que não, mas ela fica diminuída na presença de alguém que tenha bons modos, fale com elegância, vista-se com apuro. E qualquer um pode ser assim, não é questão de ter ou não dinheiro, mas gosto...
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Os vulgares - 22/12/2009
Os vulgares
Há muitas similitudes, já disse isso aqui, entre o casamento e o trabalho, o ambiente onde trabalhamos. Muitas semelhanças. E nunca é demais lembrar que os casamentos andam durando pouco. Pudera, os “pombinhos” têm quase nada a oferecer um ao outro tão pronto lhes caia a máscara das mentiras. Explico.
Nos primeiros momentos do namoro, os dois se desmancham em gentilezas, gentilezas e mentiras, os dois são ótimos, suas famílias, perfeitas, e isso e aquilo. Tudo mentira. Ninguém mente mais do que duas pessoas em fase de namoro, de conquista. Mentirosos da cabeça aos sapatos.
Uma vez casados, e passado o foguinho da lua de mel, foguinho, sim, de curta duração, sobrevêm as verdades.
O marido começa a se revelar, não era nada do que dizia ou parecia ser... os dois passam a se revelar nas vulgaridades do convívio, um horror! Enganaram um ao outro.
Nem ele tinha um pingo das cortesias que parecia ter, nem ela era a moça prendada e encantadora de que dava ares... Uns enganadores, isso sim.
No trabalho é a mesma coisa. Casamos com o nosso trabalho. Se não casarmos, seremos infelizes, só nos restará, como consolo, o salário, e aí, seja o salário que for, seremos sempre mal pagos. Ou casamos por amor com o trabalho e a ele nos dedicamos com detalhismos ou é infelicidade na certa, e disse bem sabem os concursados...
Dia destes, uma consultora de carreiras dizia no telejornal Hoje, da Globo, que durante as entrevistas para emprego, e mais tarde, já no emprego, certos cuidados devem ser permanentes. E citava as roupas, como exemplo. Quantas vezes falei disso aqui?
Mas vá falar de roupas adequadas para os bermudões sem graça que andam por aí, vá dizer isso para as vulgares que infestam os locais de trabalho, vá. Viram bichos, acham que têm razão, erguem a voz. Mas o que me chamou a atenção na fala da consultora foi ela dizer que gíria é pecado mortal, tanto na entrevista quanto no exercício do trabalho. Gostei da consultora, gostei. Mas ela fez uma ressalva, e aí não concordei.
Ela disse que gíria só se pode aceitar nos fins de semana. Nem nos fins de semana, guria. No fim de semana, marido e mulher ficam mais tempo juntos. Eles já não têm muito o que conversar, vão conversar em gírias e palavrões? Vão, aí é que está. E essa é uma das razões de os casamentos acabarem cedo, quem não tem qualidade de conversação revela-se vazio, tosco, e como o fogo da lua de mel está há muito extinto, sobra o quê? Pensar em dar o fora. E quanto antes, melhor!A fala
Jamais falar de modo afetado. Mas também não é falar como num esterqueiro com a mulher, com o marido. É ter assuntos, ser rico no pensar e no dizer, ser agradável, cortês, asseado nos gracejos. É isso. E quem não pode? Os toscos, que dizem que isso é coisa de metidos. Coitados.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Mentiras e vergonhas - 21/12/2009
Mentiras e vergonhas
Para emoldurar o que vou dizer, cito antes trecho da Oração aos Moços, de Rui Barbosa, faz tempo isso, bah, um século.
Rui disse que “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o ser humano chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
Faz século que o velho baiano fez esse discurso. Nada mudou de lá para cá. Acabo de ouvir uma professora dizer que “muitas crianças se orgulham de serem maus alunos ou de terem comportamentos agressivos, mesmo quando penalizados por isso. Enquanto isso, outras crianças se constrangem pela dedicação ao estudo porque são tachadas de nerds”.
Ouvi isso e encrespei o cabelo. Antes de mais nada, preciso dizer que pesquisas já foram feitas com alunos que chegaram aos primeiros lugares nos mais diversos vestibulares, e quase todos eles, quando perguntados se estudaram muito, disseram que não, que estudaram o normal, não mais. Baita mentirosos. Estudaram como loucos, dormiram em cima dos livros de tanto estudar. Depois vêm dizer que não, que não estudaram. Sabes por que, leitor? Porque ficam com vergonha da “virtude”, como dizia Rui Barbosa, então, mentem, dizem que não estudaram tanto...
E quanto a esses tolos que criam casos no colégio, esses boca-abertas que pensam que são alguma coisa, são é otários. Mais tarde vão pedir emprego para os colegas de quem hoje debocham porque são bons alunos.
Ah, e sobre os nerds tenho algo a dizer, aliás, já disse aqui num momento anterior. Os nerds foram os primeiros garotos que se interessaram por computadores, isso no início da década de 1950. Os “laptops” daquela época tinham o tamanho de uma parede, dessas que estão aí à sua frente. Os guris se tomaram de gosto e caíram a estudar a computação. Foram chamados de nerds.
Sabes como o American Heritage Dictionary definia nerds? Assim: “Nerds são criaturas comicamente desagradáveis...” Recentemente, ouvi um professor da Faculdade Bennigton, Vermont, EUA, falando sobre nerds. Sabes o que ele disse? Simples: “Os nerds dominaram o mundo, são jovens adultos milionários do Vale do Silício, na Califórnia”. E os que os desprezavam? São frustrados e pobretões da vida.
Guri, guria, estude e não tenha vergonha de dizer que estuda. Deixe a vergonha para os estúpidos que fazem esculhambação na aula. Um dia eles voltarão a vocês. Para pedir emprego...Mentira
Diz um diretor de banco, abrindo uma agência: – A proposta é a de colocar o cliente no centro de tudo, em uma área de conveniência com design, iluminação e equipamentos nos quais tenha um autoatendimento inovador e exclusivo.
Muito bonito até conquistar o cliente. Depois é pimba no traseiro. Regra geral dos bancos.Enfado
Muitos pais vão se endividar com presentes para os filhos. Os filhos vão brincar por 10 minutos com os brinquedos e os deixarão num canto. Estão enfarados de ganhar presentes o ano inteiro. Bem feito para esses pais, bem feito!
domingo, 20 de dezembro de 2009
O poder é delas - 20/12/2009
O poder é delas
Será verdade? A mais santa das verdades. A mulher cede, sim, a palavra ao homem, a mulher é a segunda voz. Espere, leitora, espere, não vire a página.
Não vou falar mal das mulheres, pelo contrário. Durante muito tempo orientei cursos de oratória, e toda vez que pedia a alguém que viesse “aqui na frente” para um exercício, todos ficavam parados, não se mexiam, rezavam para que alguém levantasse o dedo. Depois de bons minutos, lá vinha um “corajoso” expor-se, raramente era uma mulher.
Acabo de mexer nos meus arquivos e achei um artigo interessante, de junho de 1989, sublinhado e amarelecido. Título: Aprenda a não jogar conversa fora – fale e convença. Um artigo para advogados? Para vendedores? Para políticos? Para jornalistas? Não, para mulheres.
Antes de comentar frases do texto, preciso dizer que essa história de mulheres oradoras tem histórias... Primeiro, quem escreve a História são homens. Escrevem o que querem e parece que fizeram parte com o demônio: jamais dizer que uma mulher é oradora, foi oradora, mudou alguma coisa com o discurso. Procure na História e depois me conte. As mulheres só agora, mais recentemente, estão dizendo alguma coisa e sendo citadas, tipo Margareth Thatcher, que os estúpidos chamavam de Dama de Ferro. Impotentes!
Curiosa essa história. As meninas falam primeiro que os meninos, jamais um guri falou antes do que uma guria, jamais. O vocabulário das meninas é disparadamente maior, melhor, elas têm dicção mais apurada, gestos mais adequados, tudo. E vão crescendo assim, crescendo, crescendo, até chegar à adolescência. Aí começam a silenciar, a palavra é do garoto.
Depois, casadas ou na profissão, só eles falam, quando elas tomam a palavra são muito mais interrompidas do que o office-boy da empresa.
Algumas linhas do artigo que li: “A frequência com que os homens interrompem as mulheres chega a ser escandalosa... Os homens puxam o assunto delas para o lado que lhes interessa, principalmente entre os casais... A mulher é um escanteio verbal no trabalho... A linguagem feminina é típica dos sem poder... As médicas são bem mais interrompidas pelos pacientes homens do que os médicos...”
Não tenho mais espaço. Leitora, leitor, ensine suas filhas a ter poder, a impor-se pela fala, a não silenciar diante de bermudões, a serem ouvidas no trabalho, afinal, elas nasceram para a oratória, foram usurpadas do poder pelos machistas, que deram aos guris o poder que nas meninas é feio... Reajam e eduquem as filhas para o ser, pela palavra.Ordem
Ordem tem como sinônimo disciplina. Faça-me saber de um único vencedor na vida que tenha sido um fora de ordem e vou sugeri-lo ao Faustão para uma entrevista. Qualquer pessoa pode ser o que quiser na vida, mas terá que ser disciplinada. O que mais há é gentinha querendo vencer no mole ou por meio de um concurso...
sábado, 19 de dezembro de 2009
O pedido - 19/12/2009
O pedido
Todos os anos leio algo parecido nos jornais. São os pedidos que as crianças mais fazem ao Papai Noel dos shoppings. A última notícia vinha de São Paulo, penso que bem podia ser daqui ou de qualquer lugar, as pessoas são as mesmas e assim os seus problemas.
A criança senta no colo do Papai Noel, e quando perguntada o que gostaria de ganhar no Natal, responde: “Que o pai não brigue mais com a mãe!”. Essa é a resposta mais comum, mas imagino que também há muita mulher encrenqueira, mas acaba sobrando para o marido. Vamos combinar, nem todo mundo é vilão, tem cara bom, legal, marido quase santo, claro que tem... E dizendo isso, imagino que o leitor balançou a cabeça para cima e para baixo. Acertei? Eu sei, nós nos conhecemos, não é, leitor? Falando sério. É rematada estupidez os pais pensarem que enganam uma criança de dois anos, por exemplo. Enganam coisa nenhuma, a criança já tem o termômetro da energia de pai e mãe, intui, sente quando os dois estão fora de sintonia, tolice imaginar que não. E o que dizer quando a briga é feia, palavrões, ameaças físicas, objetos jogados contra a parede? Isso, que não envolve (?) a criança, a traumatiza para toda a vida, e muito mais do que uma surra injusta que ela venha a receber. O que traumatiza, o que faz inseguras e infelizes as crianças, é ver a desarmonia entre pai e mãe, ver ou senti-la.Pai bebendo além do “social”, mãe se dopando com soníferos, tranquilizantes, antidepressivos, tudo, de tudo, e pensam que a criança não vê, não sente, que estúpidos!
Não admira que no colo do Papai Noel, na inocência da infância, peçam isso a ele, que o pai não brigue mais com a mãe. Se eu fosse essa criança pediria diferente, pediria ao Papai Noel para voltar no tempo e impedir que os dois imbecis casassem...
Os casamentos de hoje, regra absoluta, absolutíssima, não valem a pena, não irão longe, serão sofridos, angustiosos, com final trágico ou conhecido: a separação. É regra.
Você conhece alguma exceção? Cuidado, não ponha essa mão no fogo assim no mais, sem pensar ou observar antes – quem vê aparências não vê alcovas de portas fechadas...
Mas os Papais Noeis de shopping não me saem da cabeça, e fico pensando em mim mesmo, se eu fosse um desses velhinhos de vermelho.
Sabes o que eu diria a um menino que me pedisse para que os pais não brigassem mais? Diria: “Guri, vai lá e manda o teu pai ou a tua mãe para os quintos dos infernos.”Relho
Sala de aula é inferno para os professores de hoje. Com escassas exceções, só dá alunos que não prestam, mal-educados natos e hereditários. Dizem que ninguém mais quer ser professor. Ah, no meu colégio querem, sim. Vagabundo de menor idade sai no relho, expulso.
Fones
Gente madura, “velha”, anda nas ruas com fone ouvindo música, típicos otários. Multiplicam-se os atropelamentos de gente “desavisada”, que não ouve nada além dos fones enquanto anda pelas ruas. Olhe para a cara deles e veja se não têm cara de doentes!
Brasil
Se o sujeito não for um altíssimo especialista jamais vai ganhar mais dinheiro fora do Brasil do que aqui. É mentira dos que estão lá fora dizendo-se numa boa, mentira. Quem quer trabalhar pode escolher o que fazer no Brasil. E aqui será cidadão; lá fora, pária.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Viajando para trás - 18/12/2009
Viajando para trás
Você tem passado? Sim, sei, a pergunta soa idiota, afinal, todos temos passado. Os amnésicos, esses sim, só eles, não têm passado, e pela singela razão de que o nosso passado está na boa saúde da memória. Passado é memória. Credo, chego a ficar rubro ao dizer isso. Mas há uma razão.
Acabo de ler na minha agenda a frase do dia, ela foi-nos deixada pelo Marcel Proust. Diz assim: “A verdadeira viagem se faz na memória.” Penso que ninguém discorda.
O que estou a me perguntar é de que tipo de viagem tratou o Marcel. Minhas viagens ao passado são todas elas, todas, incondicionalmente todas, viagens profissionais. E digo mais: tenho severas dificuldades para viajar se não for por razões de ordem profissional.
Vim até aqui para dizer que – julgando por mim – fico a imaginar que quem não tenha tido uma boa e intensa vida profissional não haverá de ter histórias para contar, não terá como viajar para o passado... O que faria uma pessoa num passado vazio, modorrento, sem graça, de uma vida de burocrata concursado, por exemplo?
Nossa melhores “viagens” ao passado têm que ser viagens profissionais, temos que ter o que lembrar e contar a partir do trabalho. Não é por outra razão que grito aos jovens que me ouvem nas palestras que faço em escolas que só sigam a profissão que o coração lhes indicar, que não se deixem levar pelos modismos ou por pressões familiares assentadas sobre status ou dinheiro. Digo aos guris e gurias que casem com suas profissões por amor, só assim o “casamento” dará certo. Quem faz o que faz por amor e não só por dinheiro será feliz, terá o que contar nos adiantados da vida. De outro modo, por exemplo, que histórias podiam ter para contar, que “viagens” podiam fazer na memória as velhas tias, as mães, as avós do passado que saíam da meninice para um casamento que só as levava a parir, a parir um filho atrás do outro, até se esgotarem, já velhas?
Quem não tem uma intensa atividade profissional, quem não escrever histórias de uma paixão profissional ao longo da vida, nada terá para lembrar, contar ou “viajar” na memória nos adiantados da velhice.
Ah, e pelo que me contou um “passarinho” – e que curiosamente é verde –, estou por fazer mais uma viagem, para contá-la e recontá-la mais tarde na memória. Será uma viagem inédita. Bem provável que eu a conte aqui...Sábio
Sujeito foi mandado a trabalhar numa filial da empresa. Perguntado pelos colegas se lá era melhor, ele disse que não, que trabalhava bem mais, que era uma correria. Depois, sussurrou ao ouvido de um amigo: “Lá é ótimo, tudo mais fácil”. Por que escondeu antes a verdade? Para que colegas não lhe puxassem o tapete por inveja. Sábio.
